Declaração de interesse antes de começar: a GetShake vende uma ferramenta que audita audiência de creator. Um texto sobre detectar seguidores falsos escrito por quem vende isso só presta se ensinar a conferir na mão, sem ferramenta nenhuma. Todos os sinais abaixo são verificáveis num perfil aberto, de graça.
Vale começar por uma limitação honesta, porque ela muda como o resto deve ser lido.
O último número público sobre o Brasil é de 2020
A medição ampla mais recente que existe publicada sobre o mercado brasileiro é o relatório State of Influencer Marketing in Brazil, da HypeAuditor, de fevereiro de 2020, com uma amostra de 515.830 perfis brasileiros. Ele encontrou que mais de 33% dos perfis entre 5 mil e 20 mil seguidores tinham anomalias no gráfico de crescimento e que cerca de 28% tinham mais da metade dos comentários classificados como inautênticos.
São seis anos. As plataformas mudaram, os métodos de fraude mudaram e as defesas também. Trate esses números como ordem de grandeza histórica, não como retrato de hoje.
O que vale reter não é o percentual, é a consequência: ninguém publicou desde então uma medição comparável do mercado brasileiro. Como não existe um número atual de referência, a única verificação confiável é a que você faz no perfil que está na sua frente, uma a uma.
O primeiro sinal é a conta de engajamento que não fecha
É o mais simples e o que mais entrega. Pegue os últimos dez ou quinze posts, some curtidas e comentários, divida pelo número de seguidores e tire a média.
O que importa não é bater numa régua universal, porque taxa boa varia muito por nicho, por formato e por plataforma. O que importa é a comparação entre perfis do mesmo tamanho e do mesmo assunto. Quando um perfil tem audiência parecida com a dos concorrentes diretos dele e engajamento numa fração do deles, existe uma explicação, e ela precisa aparecer.
Um cuidado que evita acusação injusta: perfis muito grandes engajam proporcionalmente menos por razões legítimas, e isso está explicado em micro, macro e nano influenciador. Comparar um perfil de um milhão com um de vinte mil não diz nada.
O segundo é o degrau no gráfico de seguidores
Crescimento real é irregular mas contínuo. Sobe mais rápido quando um conteúdo performa, desacelera depois, e a linha tem textura.
Compra de seguidores desenha outra coisa: um degrau. Milhares de contas entrando em poucas horas, seguido de um platô liso, às vezes seguido de queda quando a plataforma faz limpeza. Foi exatamente esse padrão que o relatório de 2020 classificou como anomalia em um terço dos perfis daquela faixa.
Sem ferramenta, dá para aproximar: guarde o número de seguidores hoje e confira de novo em uma ou duas semanas antes de fechar. Salto grande e sem conteúdo que justifique é a coisa mais fácil de flagrar.
O terceiro é o comentário que não conversa
Audiência de verdade responde ao que foi dito. Comenta sobre a receita, discorda do argumento, pergunta o preço, marca um amigo por um motivo que dá para entender lendo o post.
Comentário comprado é intercambiável. Serve para qualquer post de qualquer perfil sobre qualquer assunto: elogio genérico, emoji solto, uma palavra. Abra três publicações seguidas e leia os primeiros vinte comentários de cada uma. Se eles poderiam ser recortados e colados de um post para o outro sem ninguém notar, a conversa não é real.
Existe uma variação mais difícil, que são grupos de engajamento recíproco. Ali os comentários são escritos por pessoas de verdade, mas as mesmas pessoas aparecem em todos os posts, sempre nos primeiros minutos, e quase sempre são outros creators. É legítimo no sentido de que ninguém comprou robô, e é enganoso no sentido de que aquilo não representa a audiência que a sua campanha quer alcançar.
O quarto é a audiência que não está onde deveria
Um perfil que fala português sobre um assunto brasileiro e tem parcela relevante de seguidores fora do país merece uma pergunta. Nem sempre é fraude: diáspora, conteúdo em pauta internacional e viralização pontual acontecem. Mas costuma ser o rastro mais visível de compra, porque os pacotes vendidos são montados com o que estiver disponível.
O mesmo vale para faixa etária e gênero que não batem com o conteúdo. Esse dado não aparece no perfil público, e é justamente por isso que ele entra na lista do que pedir, mais abaixo.
O que não é sinal de fraude
Vale registrar, porque falso positivo custa contrato e queima relação.
Queda de engajamento ao longo do tempo é o comportamento normal de quase todo perfil que cresce, e não indica compra.
Muitos seguidores e poucos posts pode ser alguém que veio de outra plataforma ou de uma exposição na televisão, com audiência real trazida de fora.
Engajamento concentrado em poucos posts costuma ser um conteúdo que performou, não manipulação.
E taxa baixa em perfil muito grande é aritmética, não desonestidade.
O que pedir, e como pedir sem ofender
O jeito mais rápido de resolver a dúvida é perguntar, e a forma da pergunta muda a resposta que você recebe. Pedir "prova de que os seguidores são reais" soa como acusação. Pedir os dados que qualquer campanha precisa soa como processo.
Peça o print do painel de audiência da própria plataforma, com distribuição por país, cidade, faixa etária e gênero. É informação que o creator tem e que ele já manda para outras marcas.
Peça o alcance médio dos últimos trinta dias, e não o do melhor post.
Peça a diferença entre o desempenho de conteúdo orgânico e o de conteúdo patrocinado, que costuma ser o dado mais revelador e o menos pedido.
E peça o histórico de campanhas recentes na sua categoria. Quem trabalha bem responde essas quatro em minutos, e quem trava numa delas já respondeu o que interessa.
Quando as respostas chegarem, elas entram na mesma conta que decide o resto da contratação, que está no guia de marketing de influência, e ajudam a comparar propostas pelo custo real, como mostra quanto custa contratar um influenciador.
